Red
by ~HikaCheshireO dia estava acabando, o céu ia lentamente se tingindo de rubro, nuvens roxas surgiam ao céu, tapando o que pouco restava do grande sol laranja que se pousava atrás da grande colina ao longe, mas, naquela floresta densa, já era quase de noite, apenas alguns de seus pedaços apareciam em tons alaranjados. E ela agradecia por aquilo, pois podia se esconder no canto mais escuro que havia encontrado, atrás de um enorme carvalho.
Estava com medo, com medo daquilo que a seguia havia horas, aquilo que a farejava no ar, com ferocidade.
Devagar, Vivien se abaixou, encolhendo-se e o máximo que podia contra o grande tronco, escondendo a cabeça entre os joelhos, podia ouvir seu coração se acelerar a cada folha que caía, a cada galho que mexia ou se partia, agradecendo mentalmente ao ver que não era nada. Respirou fundo e decidiu se levantar, ainda ficando encostada à árvore. Ficar parada ali poderia ser mais perigoso ainda, principalmente porque a noite estava chegando, e talvez coisas piores aparecessem.
Mas então, um outro som surgiu ao longo daquela densidade, fazendo os pássaros que haviam por lá levantarem vôo mais que rapidamente... Era um uivo.
Prendeu a respiração, já estavam ali por perto, começou a se desesperar, não havia corrido o bastante?Não... Para eles não importava o quando você corresse, ou se escondesse... Eles achariam qualquer coisa naquele lugar.
Ela esticou um pouco a cabeça para olhar o máximo que podia atrás daquele carvalho, enxergando através dos galhos mais baixos. Nada. Mas podia jurar ter ouvido aquele uivo cortante, um som do inferno para ela. Virou-se para poder voltar a encarar as árvores negras à sua frente, um pouco mais aliviada. Quando avistou algo que realmente não queria.
Estavam ali... Dezenas, centenas de enormes lobos cinzentos estavam parados bem na frente da moça, rosnando para ela com aqueles enormes caninos, os olhos amarelados exalando a fúria assassina. Iriam matá-la.
Atrás da matilha, havia um que se destacava mais que os outros, devia ser o chefe. Era mais escuro que todos e seu olho esquerdo estava mais claro e fechado que o outro, por causa de uma grande cicatriz, que parecia ter sido causada por algo que parecia ser uma arma afiada. Este encarou a garota profundamente por longos minutos, os olhos penetrantes fizeram-na ficar mais tensa, e então ele uivou. Um uivo não muito alto, mas que parecia ter muito significado, e demonstrava autoridade, pois imediatamente após aquilo, os lobos, todos ali presente, foram na direção de Vivien.
Estavam por toda parte, e por mais que ela tentasse desviar, fugir, não conseguia se livrar de ser perseguida por eles, não mais com a facilidade e sorte que tivera antes. Tentou mais uma vez, mas um deles conseguiu dar-lhe uma patada em seu ombro, forte o suficiente para jogá-la contra uma árvore, e sendo imediatamente cercada por outros. Não havia mais escapatória, tudo que podia fazer era fechar os olhos e esperar a dor chegar.
Mas, felizmente, ela nunca veio.
Ao invés disso, a garota ouviu um som de carne sendo partida, junto de um ganido e algo úmido respingando em seu rosto. Abriu os olhos a tempo de ver um borrão vermelho passar perto de si e cortar alguns lobos ao meio. Vasculhou seu campo de visão com os olhos, querendo ver o que ou quem havia feito aquilo.
Então ela a viu.
Era uma outra garota, provavelmente da mesma idade que Vivien. Usava um vestido esbranquiçado com um estranho cinto de couro escuro, torto, como se carregasse algo pesado no lado mais baixo, por cima do vestido, havia uma enorme capa vermelha, que quase parecia um segundo vestido sobre o primeiro.Em uma das mãos ela segurava um enorme machado de ferro, agora completamente encharcado com o sangue daqueles animais.Seus olhos azuis estavam transparentes de raiva, enquanto fazia mais sangue jorrar dos corpos que atingia, fazendo gotas de sangue se destacarem no rosto extremamente pálido e nas poucas mechas loiras que podiam ser vistas saindo do grosso capuz que usava e que cobriam seu olho direito.
Vivien nunca havia visto aquela moça antes, o que era estranho, pois aquela floresta não era caminho pra lugar nenhum, e o vilarejo em que morava era pequeno, e praticamente todos se conheciam por lá, quem seria ela?Sabia dominar os lobos com habilidade, e os matava facilmente, como se fossem um nada. Ela aproveitou o momento da luta e foi tentar se esconder atrás da árvore em que fora jogada, mas acabou sendo atacada pelo mesmo animal que a havia atingido antes. Acabou levando horríveis arranhões nos braços e nas pernas, e antes que pudesse levar o golpe final, o lobo fora jogado para longe pela garota de vermelho:
- Se esconda ali... Sussurrou sua salvadora em um tom frio e baixo, apontando a mão fina e branca para uma grande árvore com um buraco onde apenas uma pessoa como Vivien poderia caber, nenhum animal podia entrar ali, nem que forçassem.
Sem perguntar ou falar nada, a outra garota partiu imediatamente para aquele buraco, e ficou lá, a uma distância segura, assistindo àquele massacre, que parecia durar uma eternidade. Os lobos iam morrendo pouco a pouco, cada um de uma maneira pior que a outra. Pelo jeito aquela matadora tinha algo a pagar com eles. Talvez vingança, pois não havia piedade no seu olhar, tão frio em certos momentos quanto sua voz havia soado. Claro que os lobos não deixavam barato, e vários arranhões e mordidas apareciam em seu corpo também, mas aqueles ferimentos não pareciam importar a garota, que só via a ânsia de matar à sua frente.
Então Vivien ouviu novamente aquele uivo, vindo do lobo escuro, que apenas assistia a matança de suas próprias criaturas, como se esperasse o momento certo para revidar. E parecia que aquele era o momento certo. Pois quando um número grande de lobos já havia morrido, e o silêncio voltou a dominar a floresta, o enorme animal avançou nela. A espectadora queria poder ter avisado, mas nunca havia visto um lobo tão rápido quanto aquele.
Os dois começaram a duelar, aquela luta parecia ser bem violenta, os avanços, os golpes, todos pareciam unir uma fúria gigantesca, pois os resultados dos ataques não eram os melhores. Vivien podia notar que a garota ia ficando cada vez mais pálida à medida que seu sangue ia saindo pelos ferimentos causados pelos lobos, o que a fez perceber por fim que nenhum dos dois ousava ferir o outro, apenas golpes sem lâminas ou garras, que o máximo que faziam era deixar grandes e doloridos hematomas. Então, mais um movimento, outro ataque, dessa vez quem desferiu o grande golpe foi a moça, que jogou o lobo para longe com a parte de madeira de seu machado. E, com a fraqueza, ela acabou pendendo para a árvore mais próxima, acabando por ficar de costas para o oponente. Nem percebeu quando o lobo se levantou novamente, e começou a caminhar na direção dela, enquanto assumia outra forma... Uma forma humana.
A outra quis alertar, tentou, mas a garota apenas percebeu o perigo tarde demais, quando ela foi virada de frente por um rapaz de cabelos escuros, roupas negras e olhos amarelados, um deles com uma grande cicatriz.
Do buraco, Vivien tentava colocar as idéias no lugar, quem era aquele rapaz? Era ele quem estava em forma de lobo o tempo todo? Não, não fazia sentido, embora ela quisesse tentar entender, aquelas coisas supostamente não deveriam ser reais...
Mas pelo jeito eram:
-Han... Já faz quantos anos? Sussurrou o rapaz para a garota, após um longo silêncio ter se estendido por todo o local.
-O suficiente... Desde que você me matou! Exclamou ela furiosa.
-Matar? Disse ele, parecendo surpreso Ora Han, não diga isso, eu apenas... Dei-lhe uma nova vida...
Ela se afastou bruscamente:
-Uma semi-vida, idiota! Gritou ela, antes de mirar o machado perto do rosto dele Agora porque você não vai embora antes que eu danifique seu outro olho?
Ele riu sarcasticamente:
-Você? Isto... Ele indicou o próprio olho Foi a única vez em que você ousou me ferir.
-E isto... Exclamou ela, indicando o que, para Vivien, deveria ser seu olho direito Foi o que me motivou a fazer isso em você...
Ele voltou a se aproximar dela:
-Pelo jeito somos iguais agora...
-Eu não sou que nem você!
-Ah é... Disse ele, se aproximando mais dela Você é mais do que imagina E, dizendo isso, pousou a mão em uma área de um dos braços dela Não se esqueça.
Os olhos dela se arregalaram momentaneamente, como se milhares de lembranças estivesse passando por eles, então ela se afastou mais uma vez, mas seu tom de voz não era mais o mesmo:
-Saia daqui! disse. Os olhos encarando o chão Saia daqui antes que eu mude de idéia e te mate!
-Então porque não o faz? Disse ele em tom seco Porque não me mata agora? Esperou uma resposta, mas apenas obteve o silêncio Se já lutamos tanto... Ele abaixou a voz E se você me odeia tanto quanto diz, porque não acaba com isso logo?
Aquilo parecia ter sido a gota dágua pra ela, e então ela avançou nele, com o machado firmemente nas mãos, disposta a acabar com aquilo.Mas ela não só perdeu as forças no meio do caminho, como ele segurou sua mão antes que ela desferisse o golpe:
- Eu também não consigo... Sussurrou ele quando se viu perto dela - Não consigo te matar Han...
E desapareceu, deixando-a sozinha. A garota respirou fundo umas três vezes, enquanto caminhava de um lado para o outro dizendo algo para si mesma, algo que Vivien não conseguiu ouvir. Por fim, a outra olhou em volta e, foi até a árvore onde a garota estava:
-Você está bem? Perguntou ela inclinando a cabeça para encará-la, fazendo com que a franja que cobria seu olho caísse um pouco pro lado, e a garota na árvore pôde entender o que ela quis dizer com o que a havia motivado a ferir aquele rapaz, o olho direito dela era coberto por três grandes cicatrizes, que mais pareciam marcas de garras.
-Eu... Estou... Disse Vivien com calma, aceitando ajuda quando a moça lhe ofereceu a mão E você?
Ela encarou seu próprio corpo:
-Já estive pior... Disse - Qual é o seu nome?
- Vivien Respondeu, completando após alguns segundos - ...E o seu?
A outra a encarou brevemente, antes de começar a tentar tirar o máximo de sangue que podia do machado com a capa:
- Eu não tenho um nome... Respondeu Pode... me chamar de Red...
-Red? Vivien pensou se deveria perguntar por que aquele rapaz a chamava de Han, mas achou melhor não dizer nada, ela não parecia nada bem.
-É... É meio estranho, mas é como a minha avó me chamava... Disse Red - Por causa da capa sabe?
-Ah sim!Então, certo, Red!Obrigada por me ajudar... Respondeu Vivien.
-Não foi nada... Disse É apenas o meu trabalho. Vamos, vou levar você pra fora daqui antes que eles voltem. E, dizendo isso, guardou o machado na parte mais baixa do cinto e começou a andar.
-Certo! E antes de começar a andar, ela encarou o que deveriam ser os corpos dos lobos, mas agora não passavam de corpos humanos O que... É... Isso?! Exclamou ela.
Red a puxou para voltar a andar:
-Eles são assim na verdade Disse.
-Então são como os lobisomens? Tentou deduzir Vivien, enquanto acelerava o passo pra poder sair dali.
-Não, só se transformam na primeira lua cheia após a mordida, depois podem virar quando quiserem... Respondeu Red É mais fácil dizer que eles são pessoas enfeitiçadas, ou algo assim...
O silêncio surgiu entre elas, enquanto caminhavam pela floresta, Vivien não sabia se puxava mais algum assunto, ou ficava o caminho todo encarando o nada, gostaria de saber o que ela queria dizer com Esse é o meu trabalho, ou o que ela fazia sozinha naquela floresta tão perigosa...
Por fim, decidiu:
- Quem era aquele homem? Perguntou.
O olho visível de Red desfocou:
- Ele... Começou ela É alguém que eu gostaria de nunca ter conhecido...
-Como assim?
- Nada, é uma história muito complicada... Além do mais, ela não iria entender, ninguém iria. É apenas um inimigo antigo.
Vivien voltou a ficar em silêncio, talvez ela nunca soubesse quem era ela, ou o que ela fazia. Começou a ver o fim da floresta surgindo, juntamente com a noite. E voltou a encarar Red, que parecia estar afundada em seus pensamentos. Imaginaria no que ela estava pensando. Gostaria de tentar perguntar mais, ou tentar descobrir algo sobre sua história...
Mas a história de Red não era como um conto. Não, era algo mais sério... Mais terrível.
A pequena Hannah, como já foi seu nome um dia, deveria ter uns doze anos quando sofreu mais do que todos. Começou quando a mãe a mandou visitar a avó, que morava na floresta. Má idéia. Ao invés de encontrar a cena costumeira, o que ela avistou ao entrar na casa dela foi sangue... Muito sangue, e pedaços do que seria um corpo, ou mais, espalhados por todo o lugar. Ela voltou correndo para a vila, para descobrir que esta havia sido massacrada por uma matilha assassina, talvez a mesma que havia matado a sua avó.
Tentou se esconder, mas os animais a farejaram e ela se esgueirou na floresta, tentando se proteger o máximo possível dos animais, mas não conseguia ver o caminho a sua frente por causa das lágrimas que teimavam a sair de seus olhos. Causadas pelo choque e da imensa tristeza ao ver sua família e amigos mortos. Pensou em voltar e revidar, mas o que uma garotinha podia fazer?
Então ela avistou aquela casa, e foi pedir ajuda. Isso se a pessoa que morasse ali não estivesse morta a essa altura.
Bateu, bateu duas, três, quatro vezes, gritou por socorro, enquanto os animais chegavam, e só foi ser atendida quando era quase muito tarde. Feliz por ver que na sua frente havia um homem, e vivo, ela acabou desmaiado por cansaço, pois nunca correra tanto assim na vida.
Acordou horas depois, o homem a havia salvado, e os lobos sumiram. Seu nome era Ian, e ele era um caçador que vivia dentro da floresta há muito tempo, e Hannah o conhecia bem, pois sempre o via andando pelo seu vilarejo, e sempre conversavam algumas poucas coisas. Estava muito agradecida por ter sido salva por ele, mas não podia deixar de ficar triste por saber que não haveria uma casa para voltar naquele dia... E nem nos outros. Hoje em dia ela teria preferido sair e voltar para o que havia restado de sua casa, ao invés de ter aceitado o convite do bom caçador quando este disse que ela poderia viver ali, e ele a ajudaria a se defender daqueles monstros.
Assim, o tempo passou. Dois... Três anos correram e a vila aos poucos foi voltando ao que era, graças a sobreviventes e viajantes. Dos lobos? Nem sinal. Hannah já havia se acostumado a viver com Ian. Ele a ajudava a enfrentar aqueles seres, e ela o ajudava na casa do jeito que podia. Logo foram se tornando grandes amigos, para Hannah, mais do que isso. Ela estava gostando tanto dele, que se sujeitou a deixar ser chamada pelo apelido que mais odiava, inventando por uma amiga, Han. E tudo corria normalmente.
Até aquela noite...
Aquela noite em que sua vida se despedaçaria por completo, e nunca mais haveria outra chance de poder viver em paz.
Fazia exatamente seis anos que tudo aquilo havia acontecido à ela, já era noite e a casa estava silenciosa.Ian havia saído para fazer alguma coisa, e ela acabou ficando sozinha.Já era bem tarde, e ela estava pronta pra dormir, quando ouviu um barulho na sala.Pensou que era o caçador, e correu para ver se tudo estava bem, quando viu que na verdade era um enorme lobo escuro que estava na casa, trazendo consigo não só a matilha, como também um corpo de pessoa, morta.
Imediatamente ela pegou o machado que havia ganhado do amigo e foi, decidida, expulsá-los de lá, não tinha mais medo, havia treinado do suficiente.
O animal parecia ter ficado surpreso quando ela apareceu e tentou atacá-lo.A luta durou alguns minutos, pois ele não parecia querer atacar a garota, mas então ela acabou desferindo um golpe em sua pata, e ele, por instinto, acabou dando uma grande patada no olho direito da moça, cegando-a na hora, e fazendo o sangue sair demasiadamente do ferimento, ela revidou mais uma vez e ele acabou mordendo seu braço rapidamente, pois parecia ter notado o que quase havia feito.
Hannah havia sido jogada contra a parede na hora da mordida, pois o animal era bem maior e mais forte que ela.Nem viu quando o lobo havia tomado outra forma, e tocado em seu braço.
Foi um susto, não, foi um choque quando ela viu em quem aquele lobo havia se transformado.Ian tentou se explicar, mas ela já estava muito atordoada e furiosa pra entender qualquer coisa, tudo que ouviu foi uma confissão...Uma confissão guardada por seis longos anos.
...Então era ele...Ele quem havia matado sua avó, mandado aquela matilha acabar com seu vilarejo...Ele quem a havia ferido...Era ele...
Justo a pessoa que ela havia confiado, que ela havia amado.Não queria acreditar!Nem quis ouvir mais o que ele havia pra dizer.Apenas uniu as poucas coisas que havia juntado naqueles seis anos, tentou dar um jeito nos ferimentos...E partiu.
Começou a viver por conta própria a partir de então.Sua casa, a floresta, assim como seu campo de batalha, desejava apenas uma coisa: Vingança.
Matava todos, todos aqueles monstros que ousavam passar perto de si, querendo, e não querendo que fosse ele disfarçado.Também descobriu que a mordida que levara lhe dera uma semivida, se fosse uma mordida inteira, ela teria se transformado em seu próprio ódio, mas tudo que ganhou foi o dom da imortalidade.
E assim sua vida continuou...Por mais de cem anos...Esqueceu aqueles seis anos, esqueceu seu nome, só não esqueceu o seu verdadeiro passado.
-...Você está bem mesmo? Perguntou Vivien novamente, acordando a outra garota de seus pesadelos.
Red respirou fundo, como se tentasse se livrar de algo ruim:
-Estou sim, não se preocupe... Respondeu, e em seguida, avistou uma espécie de abertura entre as árvores Eis a saída...
Os olhos da outra garota brilharam:
-Ah!Já dá pra ver o vilarejo! Exclamou, e completou, se virando para ela Muito obrigada!Muito obrigada mesmo!
Red deu um meio sorriso, algo que, até agora, Vivien não tinha visto:
-Imagine... Respondeu ela Sempre que precisar.
Assim que se viram na porta da saída do local, a garota acelerou o passo para fora dali, agradeceu mais uma vez à sua salvadora, e partiu, antes porém:
-...Porque não vem comigo?Você não...tem que ir pra sua casa?
Mas Red apenas deu as costas, finalizando antes de partir:
-...Eu já estou em casa... E sumiu no meio das árvores.
A garota apenas observou a moça, intrigada, queria ter perguntado mais coisas, mas algo em si não permitia mesmo.Assim que viu que Red partira, ela também foi para seu vilarejo, pensando no encontro, nos acontecimentos...
Vivien partiu com esses pensamentos, não sabia se contaria à alguém sobre a misteriosa garota, talvez alguém de sua família soubesse sobre ela, ou talvez pensasse que era louca...Talvez não custasse tentar.
A noite já havia dominado a floresta, os lobos voltariam, e Red continuaria seu trabalho de vingança.O sangue tingiria as folhas, árvores e arbustos no mais profundo vermelho outra vez.Pois sempre que a matilha avançasse para matá-la ou fazer alguma vítima, ela estaria lá para matá-los.Não, não era uma heroína, uma caçadora, era, estranhamente, uma garota normal que sentia uma dor anormal dentro de si...O ódio, misturado com algo que ela não compreendia...
Será que alguém poderia responder o que era aquilo junto de seu ódio?E porque ele sempre sumia quando, no meio da luta, antes de finalizar o serviço, ele aparecia e novamente aquilo dentro dela a impediria de matá-lo...
Seria assim pra sempre, até o dia que ela ou desistisse, ou criaria a coragem e fincaria seu machado no corpo do inimigo.Mas por enquanto, ela não parecia querer fazer nada disso tão cedo...Queria apenas continuar a almejar sua vingança...
Logo os uivos eram ouvidos Ela já sacava seu machado Os animais farejaram o ar Ela respirou fundo... Ambos aceleraram seus passos...
...Por fim, a clareira.
Pobre, pobre garota perdida.Pobre garota sofrida... A luta havia começado novamente - Será que mais ninguém sente a dor dela? Sangue escorria pelo chão.
Não...Por tudo que ela havia notado nos tempos em que passara escondida observando o vilarejo renascer, com certeza não. Correria, avanços, dor, ganidos, arranhões, golpes...Mortes...
Tudo que poderiam fazer era olhar para a floresta, ouvir os uivos durante a noite, e sussurrar aquelas antigas palavras:
Pobre, pobre Little Red Riding Hood *...
















